Histórias, Sítios

Uma paisagem arqueológica alagada: Aquae Querquennae (Ourense)

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5 de Junho de 1921. Espanha assiste com certo letargo à escala de violência colonial que culminará no famoso desastre de Annual. A situação, como seria de esperar, ressoa como um eco distante na Galiza rural, onde os últimos dias da Primavera não conhecem qualquer revolução mais do que os esporádicos chuvascos. Porém, o tranquilo lugar de “A Cibdade”, situado na ribeira Norte do rio Lima, recebe um visita pouco habitual. Nesta ocasião não acodem a remover a terra apenas os vizinhos de Portoquintela ou Baños de Bande, senão que se aproximam também quatro figuras particularmente bem vestidas. Tratam-se dos ourensanos Ramón Otero Pedrayo, Florentino López Cuevillas e Vicente Risco, destacados intelectuais galegos, em companhia do advogado Farruco Pena, natural do município de Bande.

Miembros del Seminario de Estudos Galegos en 1928, en las Ruinas de San Domingos de Pontevedra. De izquierda a derecha, R. Otero Pedrayo, F. López Cuevillas y V. Risco. Fuente: Fundación Otero Pedrayo.
Membros do Seminário de Estudos Galegos em 1928, nas ruínas de San Domingos de Pontevedra. Da esquerda para a direita, R. Otero Pedrayo, F. López Cuevillas e V. Risco. Fonte: Fundação Otero Pedrayo.

O mau tempo não os faz desistir dos seus esforços e, no final da jornada, a sondagem aberta tinha deixado a descoberto um muro de bom aparelho e alguns restos cerâmicos. Aparentemente, era a tendência geral no lugar, mas suficiente como para que no número 5 da revista Nós os os intelectuais afirmem que se tratam das ruínas da mansioAquis Querquennis” referida pelo Itinerário de Antonino.

Artículo de López Cuevillas en el número 9 de la revista Nós.
Artigo de López Cuevillas no número 9 da revista Nós.

Uma nova visita apenas uns meses depois (09/10/1921), permitirá inclusivamente elevar estas optimistas expectativas. A apertura de uma sondagem de maior tamanho permitirá a descoberta de uma imponente muralha. Isto, unido à grande extensão na que se documentavam evidências arqueológicas, permitirá a Cuevillas assegurar num novo número de Nós que se encontravam diante de ma cidade “romana ou celto-romana”. Desde então, o assentamento passará a formar parte dos habituais catálogos eruditos da época e inclusivamente do “tour” que a Comissão Provincial de Monumentos de Ourense efectuou por esta zona em 1935.

Construcción de la presa de As Conchas (1945). Fotos tomadas de
Construção da barragem de As Conchas (1945), durante a que se afirma ter morrido um operário sepultado pelo cimento. Fotos tomadas de aquí.

Todavia, não se produzirão novas intervenções arqueológicas durante estes anos. A eclosão da Guerra Civil (1936-39) dificultou qualquer tentativa neste sentido. Por um lado, depois da guerra desarticularam-se as elites intelectuais galegas; por outro, assistimos a um novo cenário em que diferentes políticas e necessidades se sobrepuseram ao interesse cultural, ecológico ou patrimonial. Tal como aconteceu em muitos outros sítios, entre os planos do governo franquista contemplava-se a construção de uma barragem em As Conchas e o alagamento de uma boa parte do vale do rio Lima.

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Inauguração da barragem por F. Franco em 1949 (esquerda). A barragem e os casebres do povoado de As Conchas em 1957 (direita).

Em 1948 a aldeia de Baños de Bande já se encontrava debaixo de água. Os seus habitantes haviam sido relocalizados em instalações provisórias e uma corrente de expropriações, ofertas e reparcelamentos haviam sacudido a região. A revisão das Séries A (1945-46) e B (1956-57) do Voo Americano permite-nos comprovar a magnitude física destas mudanças, mas não só este espaço foi alterado: da noite para o dia dinamitaram-se as dinámicas socioculturais de um bom número de comunidades rurais.

Sitios arqueológicos em relação com a barragem de As Conchas, sobre ortofotos dos voos USAF 1946 e 1957.
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No que respeita ao património arqueológico, as águas da barragem cobriram por completo o assentamento de “A Cibdade”, assim como boa parte do traçado da antiga Via Nova (ou XVIII) que unia Braga e Astorga. A escassos metros de As Conchas também se encontrava A Pontepedriña, uma antiga ponte romana alvo de uma rica tradição oral. A estrutura tinha sido declarada Monumento Histórico-Artístico e restaurada em 1944, mas isso não impediu a sua destruição passado pouco tempo. E depois, o silêncio. O tempo encarregou-se de ir apagando as cicatrizes ainda visíveis no território até 1956 e pouco a pouco o rico património arqueológico local caiu no esquecimento.

A Pontepedriña en 1900 (izq.), 1943 (centro) y 2000's (der.)
A Pontepedriña em 1900 (esquerda), 1943 (centro) y 2000’s (direita). Fotografías encontradas aquí.

Será apenas em 1975 que se retomam as escavações arqueológicas em “A Cibdade”. Baixo a direcção de A. Rodríguez Colmenero, F. Herves Raigoso e S. Ferrer Sierra as intervenções prolongaram-se até à actualidade. Sabemos hoje que existiu em Bande um forte romano de época alto-imperial, o melhor conhecido de toda a Península Ibérica, assim como um importante núcleo civil. Trata-se, contudo, de trabalhos não isentos de certo perigo e incomodidade, pois dependem em grande medida do nível das águas da barragem. As fotografias aéreas recentes mostram com claridade este facto.

O forte romano de Bande em 2006 e 2014.
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Ainda que a Fundación Aquae Querquennae-Via Nova tenha desenvolvido um importante trabalho na conservação e valorização dos restos arqueológicos da zona, a existência da barragem dificulta qualquer tentativa de desenvolvimento de um ambicioso projecto para o conhecimento da paisagem arqueológica no seu conjunto. Outros monumentos como o de Pontepedriña encontram-se praticamente arrasados e as iniciativas para a súa recuperación fracassaram por completo. Felizmente, outros interessantes sítios arqueológicos do entorno, como os castros de Lobosandaus ou Rubiás, não foram afectados por este processo e poderiam ajudar-nos a compreender as transformações vividas na região com a chegada das tropas romanas.

El embalse de As Conchas el día de su inauguración (izquierda) y en la actualidad (derecha). Fotografías recogidas aquí.
A barragem de As Conchas no dia da sua inauguração (esquerda) e na actualidade (direita).

José M. Costa

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